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Um mundo sem criança!

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A imagem de uma criança de três anos, que morreu afogada, numa tentativa de fugir da guerra na Síria, cujo corpo ficou por alguns momentos na areia de uma praia na Turquia, chocou o mundo!

Mas, por que chocou? Por que tanta gente se emocionou?

Estima-se que morram 20 mil crianças por dia no mundo. Afogadas, arrastadas por bandidos em carros pelas ruas das cidades, de fome, desastres de todos os tipos, assassinadas, nas filas dos hospitais públicos brasileiros, maltratadas pela família, abandonadas, devoradas por animais, jogadas das janelas de apartamentos, esquecidas dentro de carros fechados e por aí vai…

Quantas imagens de crianças africanas, especialmente da Etiópia, esqueléticas, puro osso, famintas correram o mundo? Mereceram tantos cliques nas redes sociais? E os milhares de imigrantes africanos, inclusive crianças, que morrem todos os dias nas costas italianas, tentando fugir da guerra, da fome, da miséria? Estima-se que 30 mil perderão a vida nesta tentativa, só este ano!

Para dramatizar ainda mais, editaram fotos da criança síria ao lado de fotos de pessoas salvando baleias, golfinhos, dentre outros animais, numa clara sugestão de que animais valem mais que pessoas. Eu até concordo que, em muitos casos, os verdadeiros animais são as pessoas! Mas, e as crianças nordestinas famintas, barrigudas, doentes? Cito as nordestinas, por ser notório que a mortalidade infantil no nordeste é maior que em outras regiões do Brasil! E as crianças filhas das ruas, das drogas nas grandes cidades brasileiras? Quantas crianças morrem por ano na sua cidade, no seu bairro. Quantas você viu morrer no seio de sua família?

Garanto que não é difícil responder às perguntas feitas. Então, qual o motivo de tanta consternação?

Acho que entornou a água do copo. Creio que a imagem desta criança síria morta numa praia, abandonada como se lixo fosse, foi a gota que bateu forte, transbordou no copo e molhou o coração das pessoas! Alguém deve ter gritado: “C H E G A A A A A A ! !”, e o grito retumbou nos quatro cantos do planeta! Esperança, criança! Esperança…

Tenha esperança, criança, quando o pitbull louco te atacar! Tenha esperança, quando precisar de um transplante de medula! Coloque aquela foto nas redes sociais, sorrindo, com a cabeça careca devido ao tratamento contra o câncer e tenha esperança! Tenha esperança quando for obrigada a se prostituir aos 10 anos de idade! Tenha esperança quando, com 07 anos, com uma arma de fogo dada pelo traficante, matar pessoas inocentes para roubar um celular! Tenha esperança, criança! Tenha esperança de que os estimados UM trilhão de reais levados pela corrupção, transformados em quadros de milhões de dólares que enfeitam as paredes das mansões dos corruptos, em bebidas caras, em carrões caríssimos; ou, simplesmente, transformados em dólares, joias que ficam nos cofres de paraísos fiscais, voltarão em forma de hospitais, remédios, escolas, para te dar uma vida mais digna, criança! Tenha esperança…

Enquanto a criança é toda esperança, que tal dar para ela boas lembranças? Que tal dar uma fruta, um brinquedo, um carinho, para aquela criança, sua vizinha, suja, maltrapilha? Que tal ir a uma agência dos Correios, no início de dezembro, pegar uma das milhares de cartas enviadas por crianças que nunca receberam um presente de natal, enviar para ela um presente e enchê-la de alegria? Que tal visitar a ala infantil de um hospital e levar um pouco de afeto, de alegria para as enfermas? Que tal prestar mais atenção nas necessidades do seu filho? Que tal prestar mais atenção naquilo que realmente é útil para você e sua vida? Que tal ver o mundo com olhos de compaixão, de ternura, de solidariedade?

São muitos “que tal”, muitas “esperanças”, muitas tragédias, muitas perguntas!

São poucas respostas. Mas, há muitas, mas muitas pessoas, que praticam o bem, que têm boas ações, que ajudam o próximo. E, mesmo sendo muitas, ainda não são suficientes!

Pobre criança síria que não ficou para ver o mundo! Feliz criança síria que se foi e não verá a miséria do mundo! Pobre pai da criança síria que perdeu toda a família. Pobres de nós…

Quantas mais morrerão na praia?

“E a gente vai levando, a gente vai levando esta vida…”

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