XINGU

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Um rio, uma história, várias nações.

Sempre quis navegar neste rio. Para minha tristeza e surpresa, os esgotos das cidades nele são despejados. O rio da vida, que dá vida, está sendo violentado!

Alugamos um barco com cozinha, banheiro e armadores de rede. O barqueiro, Elias, se fazia acompanhar pelo sogro, Sr. João. Um senhor com muitas histórias para contar. Morador do rio há mais de 60 anos! Apesar de ter passado por todas as curvas daquelas águas, hoje, aos 73 anos, anda curvado! Curvado pelo tempo, pelo rio, pela vida sofrida da floresta.

Saímos de Altamira. O Xingu estava manso, pois era época da estiagem, setembro. Ao pararmos nas várias praias do gigante, não havia como não ficarmos indignados com o descaso dos turistas, lixo pra todo lado, jet skis em alta velocidade, levando perigo aos banhistas. Uma pena. A cidade despeja esgoto, lixo hospitalar, carne podre, madeira, ferro e todo tipo de porcaria no rio. Até quando ele aguentará?

Nosso barco, de teto de palha, feito tapera, era rústico, mas confortável. O único que conseguimos alugar de última hora. Valor? 350,00 por um dia. Havia outras lanchas pequenas e velozes pelo mesmo preço. Mas, sem freezer, fogão, cozinha e banheiro… Uma casa típica dos caboclos amazônicos, só que flutuante.

A beleza do local é inebriante. Ainda se ouve o som da mata: o canto dos pássaros, o uivo de animais, o bater das asas das mais diversas aves. O por do sol é um cenário para qualquer artista. O reflexo do sol nas águas, vermelho, dá um colorido especial ao ambiente verde da floresta e o azulado das águas.

Os nativos, indígenas, foram tragados pela civilização predadora que domina o rio. Xingu quer dizer “água boa e limpa”. A água pode ser boa, mas a limpeza se perdeu. E, boa parte do rio também deixará de existir com a implantação da usina de Belo Monte. As paisagens que registrei por fotos deixarão de existir em breve.

No barco, estávamos eu, minha esposa, filho e dois cachorrinhos mestiços de pinscher. Perguntei ao barqueiro, Elias, se não havia perigo de uma sucuri ou um jacaré espreitar os bichinhos para usá-los como petiscos. Ele disse que depois do início da construção de Belo Monte, sucuris e jacarés sumiram das praias vizinhas da cidade. Mas era possível achá-los em locais mais distantes.

O Sr. João, risonho, mas de pouca fala, resolveu contar um fato que vivenciou. Disse que há uns 10 anos, costumava passear com seu cachorro por estas praias. Era um cachorro enorme, valente, acostumado a espantar sucuris e jacarés. Numa de suas idas a uma praia próxima, para pescar, ouviu um rugido de onça e ficou precavido. Já estava na melhor idade, uns 60 anos, não tinha mais o vigor e a força da juventude para enfrentar a mais temida fera da Amazônia. Deixou o facão desembainhado e a cartucheira preparada. O cachorro, amigo de muitas caçadas, também seria de grande ajuda.

Barrão! Era o nome do grande e valente cão. Por mais de 06 anos estivera ao lado do Sr. João. Brincavam, caçavam, nadavam. A areia da praia era o colchão, a lua era o cobertor. Não havia com o que se preocupar, pois Barrão estava ali para guardar seu dono.

“Seu” João, experiente, resolveu ir embora mais cedo. Não queria passar a noite na pequena ilha de areia, mesmo com a proteção do cão, com o facão e a cartucheira. Outro rugido se fez ouvir. Ele juntou as traias de pesca e caça e pegou a trilha para o barco que deixara do outro lado. Barrão estava nervoso, latia muito, mas não saía de perto de seu amado amigo e dono. Ouviu-se um estrondo! Não era um rugido. Parecia um trovão. A fera estava perto. “Seu”João apressou o passo. Já estava a uns 30 metros do barco, quase pisando a quente areia da margem do rio. Só ouviu um grunhido. Olhou pra trás e ainda pode ver seu melhor amigo na boca da fera que o arrastava com facilidade. Foi uma morte rápida para uma vida de tantas aventuras e amizade. Quis atirar na rainha da floresta, mas recuou. Ali, a onça pintada era a fera…

Aproveitamos bem o passeio, a despeito de as pessoas olharem aquele barco/casa que levava apenas 05 pessoas, mesmo tendo capacidade para 30. Não sei se eram olhares de deboche, surpresa, de pena. O barco era o trampolim para o rio. Dele pulávamos nas águas fundas e apreciávamos a beleza da orla. Só não queríamos ver uma onça por perto!

Povo invejoso…

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