O encontro das letras – edição 1285

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PARÁ: O QUE TENS PARA NOS MOSTRAR?
Neste mês de julho de 2015, partirei para um lugar desconhecido dentro do meu conhecido Pará. Conhecerei novas pessoas, mesmo que velhas; verei velhos e conhecidos problemas e tentarei, de alguma forma, ajudar a resolvê-los, melhorar o sistema.
“Aonde quer que eu vá, levo a esperança no olhar…”
Vou, para acompanhar minha esposa, meu porto seguro nas inseguras estradas que a vida e o Pará nos reserva. Vou, para deixá-la segura nos momentos em que o receio e o anseio do desafio proposto a intimidarem. Vou, para consolidar o amor e o sentimento de lealdade duramente conquistados com o tempo.
Transcrevo minhas aventuras pelo Pará, vividas em dezembro de 2013. Sei que o rio não é o mesmo, que as crianças não são as mesmas, que eu não sou o mesmo! Mesmo assim, me atrevo, pois a vida é o processo para o amadurecimento, na conquista do infinito!

INFÂNCIA DESOLADA, CRIANÇA EXPLORADA!
As águas escuras do rio Tapajós se encontram com as arenosas, turvas, imensas e potentes águas do Amazonas. Ambos se unem sem se misturar. O apetite feroz do gigante não será satisfeito. Não agora. Mas, aos poucos, o Tapajós desaparece. Mansamente devorado. O monstruoso e delicado rio aplacou sua fome. Por enquanto.
Nesse ambiente o “Monstro de aço” com perto de 1000 pessoas rompe o rio-mar, vencendo suas águas, ora calmas, ora violentas.
A linda paisagem chama a atenção. As vilas dos caboclos fazem parte do cenário e com ele se misturam. O rio Amazonas é tudo para os habitantes locais. É aeroporto, estrada, comida, porto, chegada, saída, esperança, vida, morte. Vi postos de combustível na beira do rio. As bombas tanto atendiam aos carros nas ruas, quanto aos barcos nas águas.
Muitos, no barco, trazem “presentes”, alimentos, roupas, envolvidos em sacos de plástico para atirar aos curumins e cunhantãs! É chegado o momento que eu esperava. Muito se falou das crianças que “cantam” por alimentos nas águas do rio.
O que eu vi, não me encantou. Chocou-me!
Crianças com, no máximo, 12 anos, singravam o rio em pequenas canoas de pau, com remos maiores que elas. Então, olhavam para o imenso navio com olhares de súplica, ansiosos, esperançosos. E soltavam seus gritos de dor e socorro acenando as pequenas mãos. O sol parecia agir contra eles. Queimava mais que água fervente. Mas isso não os afugentava!!
Algumas canoas continham adultos transportando, desde bebês de colo, a pequenos adolescentes. Os passageiros do navio não jogavam sacolas para os adultos. Senti que preferiam fazê-lo para as canoinhas com crianças!
Outras canoas não logravam êxito de atingir o navio com seus “arpões” para subir e vender seus produtos, viravam! Os pequeninos nadavam como peixe no resgate das canoas naufragadas.
O “monstro de ferro”, sem sentimentos, seguia seu rumo…
Uma canoinha com 3 crianças que deveriam ter de 5, 6 e 11 anos, conseguiu se unir ao gigante. A menina de uns 11 anos, com destreza e agilidade surpreendentes, jogou o arpão num pneu que servia de proteção ao navio. Com força de um adulto, puxava a corda e ia dando nós, enquanto as outras puxavam o que sobrava da corda. Rapidamente se atirou no pneu, passou a corda e lá a amarrou, perto do arpão. As outras duas crianças, tais quais símios nas árvores, subiram pelas cordas com pequenos vidros de palmito e cestas de camarões. Pareciam filhas do “homem-aranha”, no modo como se prendiam nas alturas do casco do navio.
Fiquei atônito. Perplexo. Filmei, fotografei, Os passageiros não paravam de jogar sacolas. As crianças “venderam” tudo! Quase 1 kg de camarão seco por 5 reais. Um vidro médio de puro e selvagem palmito por 4 reais. Havia outras coisas que não consegui identificar! Separei algumas notas de 2 e 5 reais, coloquei em sacos com bala e biscoitos e atirei para aqueles que remavam atrás do indiferente e imenso barco.
Aqui, no Amazonas, Conselho Tutelar deve ser um bicho desconhecido. A ausência do Estado é latente. A exploração do trabalho infantil é atração turística. Que vergonha, meu Deus!
Os cantos, em prantos, vão ficando pra trás. Perderam-se em cantos, perderam o encanto!
O por do sol chama a atenção. Os curumins vão ficando na lembrança.
O navio segue seu destino, indiferente a tudo…
Vida que vai… Vida que vem…

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